Figuras Objetais


 figuras objetais

locução substantiva feminina, plural

psicanálise

  1.  Pessoas ou figuras significativas às quais se dirigem os investimentos pulsionais e afetivos do sujeito.
  2. Figuras que, na história psíquica do indivíduo, ocupam o lugar de objeto de amor, desejo, identificação, hostilidade ou ambivalência.
  3. Por extensão, representações psíquicas ligadas às primeiras relações do sujeito e que podem participar da maneira como vínculos posteriores são vividos.


Estou eu aqui, novamente, envolta pelos pensamentos psicanalíticos.

 Às vezes trago à memória a minha primeira aula no curso. Eu lembro de tudo. Lembro do instante em que ouvi o termo “figura objetal” e de perceber o quanto essas primeiras relações deixam marcas naquilo que somos e nos vínculos que estabelecemos depois. Erros e acertos, dor, caos e destruição, rs.

Essa aula mudou a minha concepção sobre as coisas. Saí de lá com a perturbadora impressão de que o jogo começa com cartas demais já distribuídas, rs.

A psicanálise mudou a minha forma de enxergar a vida. Depois dela, eu nunca mais fui a mesma. Penso em psicanálise muitas vezes ao dia e, sim, analiso quase tudo sob esse viés. Mas não sou aquela pessoa que analisa todo mundo o tempo todo. Isso dá trabalho e as pessoas nem são tão interessantes assim.

Mas escrevo para falar da minha mãe.

Passo atualmente por um momento muito difícil, pois tenho que lidar com a doença dela. Parece frio, distante, mas ainda estou modulando muitas camadas internas para lidar com o fato de olhar para minha mãe e perceber o quanto ela se tornou frágil nos últimos tempos.

Logo ela.

Minha mãe sempre foi uma mulher forte. Veio do interior trazendo muitas frustrações e dúvidas sobre a própria capacidade, muitas delas alimentadas pelo seu próprio pai. Detinha uma espécie de “covardia social” que sempre me indignou.

Quando criança, eu pensava que jamais seria como ela. Diante dos destemperos alheios, minha mãe permanecia quieta. Eu, ao contrário, sempre fui um mar revolto. Existe uma rebelião prestes a estourar o tempo todo em mim.

 Às vezes me pergunto quanto custou a ela passar a vida domando a si mesma. Ninguém sai ileso. Ao menos é assim que passei a entender Freud.

Mas a questão é que eu não tive filhos porque não suporto a ideia do cuidar. E, ainda assim, não escapei disso.

Hoje convivo com a minha mãe que, depois de um AVC, depende de mim para uma série de cuidados e, em muitos momentos, também do meu olhar.

Sendo bem sincera, ainda estou descobrindo como lidar com isso.

Tem dias em que me rebelo contra uma escolha minha que, de algum modo, não foi respeitada pela vida. Em outros, olho para aquela mulher que me deu tanto e me compadeço.

Perguntei a um amigo, dias desses, que passou por problemas semelhantes com os pais, se ele sentia a mesma coisa. Minha busca era pelo pertencimento. Queria saber se alguém já tinha se sentido tão filha da puta quanto eu me sinto em alguns momentos do meu dia.

A resposta foi que ele se sente assim até hoje, rs.

É sobre isso.

Sobre a honestidade de admitir que existem coisas que não gostaríamos de viver. Que amar alguém não nos torna imunes ao cansaço, à raiva, à vontade de fugir ou mesmo ao ressentimento por uma vida que, em alguma medida, também passou a não ser nossa.

Talvez eu só quisesse descobrir que esses sentimentos não anulam os outros. Que a raiva pode existir ao lado do amor, o esgotamento ao lado do cuidado, a vontade de ir embora ao lado da decisão de ficar.

No fim, fui procurar pertencimento na experiência de um amigo e encontrei aquilo que a psicanálise já havia me apresentado naquela primeira aula: a ambivalência.

Talvez seja esse o problema das nossas figuras objetais. Elas nunca ocupam um lugar só dentro de nós.

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